Entendimento mutuo

Rafaela mordeu o lábio inferior.

– Ô… Posso te pedir uma coisa?

– Pede, querida. O que é?

Ela revirou os olhos, ajeitou o cabelo atrás da orelha, mordeu novamente o lábio três vezes seguidas. Respirou fundo, abriu a boca com intenção de dizer algo. Mas não disse. Apoiou o pé no joelho dele e ficou procurando pelinhos brancos na calça, do mesmo jeito com que um geneticista olha pelo microscópio no momento de fertilizar um óvulo.

– Rafaela…O que você quer me pedir?

Ela levantou os olhos durante três segundos, mordeu o lábio inferior e começou a tirar os pelinhos da calça. Hudson ficou sem entender.

– Rafaela………………………?

Rafaela encarou fixamente a lâmpada do teto.

– Eu queria… – Olhou pra ele. Deu um meio-sorriso de canto de boca, como se fosse falar algo engraçado, ou bizarro, ou inusitado, ou surpreendente, ou… – Ah, esquece. Eu tenho vergonha.

– Mas vergonha do quê? É só pedir!

– Ah, é que… Ah, não… Ah, esquece. Ah, era uma coisa boba.

– Tô ficando encafifado com isso, Rafa. Se é uma coisa boba, porque você tá fazendo esse rodeio todo? Fala e pronto; se eu puder, eu faço.

Outro longo silêncio. A população de pelinhos brancos estava sendo vítima de uma metódica chacina pelos dedos de Rafaela. Hudson tentava olhar através da cabeça da moça, pra saber o que ela quase-disse-mas-não-disse-por-vergonha-de-dizer.

– Ei, Rafa? Rafa? Me diz o que era…

– É uma coisa boba, boba. -Ela mordeu cinco vezes o lábio inferior e o superior, alternadamente. Respirou fundo. – Eu queria que você fizesse uma coisa…

– E…………..?

Rafaela parecia em dúvida sobre o impacto que o pedido poderia causar. Hudson teve medo de que ela sugerisse um pacto de sangue, ou revelasse ser de alguma seita que castrava homens de 23 anos, ou que repetisse aquela sugestão ridícula do vibrador. Um arrepio subiu pela espinha e desceu novamente. Cruzes.

Rafaela alternava olhares entre a lâmpada do teto e os arabescos do tapete. Falar ou não falar? Como ambos os objetos permanecessem silenciosos, ela decidiu sozinha. Fechou os olhos, botou a pontinha da língua pra fora, abriu os olhos. Olhou pra Hudson por baixo das sobrancelhas, apoiou o outro pé no joelho dele e pediu baixinho:

– Beija o meu pé?

Hudson abriu um sorriso de alívio e divertimento.

– Então era isso? Mas por que tanta vergonha pra pedir algo tão simples?!

– Ah, vergonha, ué.

– Boba.

Com suavidade, fez uma curvatura e beijou o pé de Rafaela, logo acima dos dedos.

– Pronto, missão cumprida!

Rafaela engoliu em seco e deu um meio-sorriso pra disfarçar o anti-clímax. Não foi discreta o suficiente.

– Ei, Rafa, o que foi?

– Ah… Sei lá, Hudson. É que…ah, esquece.

– Cê tá me deixando confuso! Fala logo o que foi, poxa.

Rafaela respirou bem fundo e disparou:

– Ah, é que quando eu falei “beija o meu pé”, na verdade eu queria que você lambesse a sola, chupasse os dedos, abocanhasse o calcanhar e mordiscasse os calos. Nossa, falei.

Hudson permaneceu estático por alguns segundos.

– Como é?

– Ah, eu falei que tava com vergonha, eu falei. É uma coisa boba, passou pela minha cabeça ontem e eu nem ia te falar, mas de repente deu tanta vontade que…

– Não. Como é a ordem das coisas? Primeiro a sola ou o calcanhar?

Ass.: Menina Eva

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