Podolatria

A casa ao lado foi desocupada com a morte da viúva e, por alguns, meses permaneceu como que abandonada. Do quintal, Lucas olhava desolado por sobre o muro da divisa as ervas daninhas avançando sobre as roseiras tão persistentemente cultivadas e sentia uma certa nostalgia ao recordar a vetusta figura curvada sobre botões e espinhos no ocaso da vida. Depois de algum tempo, apareceu o filho herdeiro que mandou cimentar o que fora um jardim, e depois da mão de tinta convencional que cobre as lembranças e os indícios da presença, colocou a casa para alugar.

Num sábado, poucas semanas depois, um caminhão encostou descarregando a mobília de quatro moças muito animadas falando aos borbotões. Lucas comentou com a mãe que deviam ser estudantes da universidade e que suas presenças talvez emprestassem finalmente uma nota alegre nesta rua de aposentados e recém-casados. Na mesma noite ouviu-se um arrastar de móveis e um matraquear insistente permeado de gritinhos e exclamações. Lucas ficou na sala até muito tarde, mantendo baixo o volume da TV, e tentando absorver os sons da vida nova instalada a poucos metros de si. Era um jovem muito tímido, filho único, mãe e pai extremamente religiosos que cultivavam uma noção de pecado, que abrangia tudo que não fosse retidão, contenção ou humildade. Fora marcado para sempre quando surpreendido descobrindo a si mesmo e às surpresas dos hormônios em certas experiências solitárias nos primórdios da adolescência; e a coisa tomou um rumo meio desconcertado. Foi-lhe sugerido que essas práticas fariam sua virilidade desaparecer e que consumiria sua energia exsudando vergonhosos e reveladores estigmas purulentos no rosto.

Das novas vizinhas, uma o fascinava especialmente. Seus longos cabelos castanhos em rabo de cavalo revelavam um rosto autoconfiante, de riso fácil e olhos quase verdes que encaravam e faziam Lucas corar. Nos segredos da blusa pendulavam a feminilidade madura que explodia em curvas ladeira abaixo. E lá, no fim do caminho, os pés. Elegantes, delicados, obra-prima da natureza onde os tarsos harmonizavam com o delicioso calcâneo, onde a graciosa curvatura dos artelhos dava o acabamento perfeito ao dorso róseo e à pegada milagrosa. Um Lucas siderado fora a eles apresentados desnudos quando a viu regando a calçada. Nesse momento, ele descobriu como seria fácil adorar sem se expor, e mesmo cabisbaixo, lhe seria possível admirar e saborear os encantos das mulheres. E nenhuma outra parte do corpo é tão cultivada e paparicada como os pés. De sandálias, salto alto, plataforma, tênis, chinelas, pantufas, que riqueza de vestuário! Qual a intimidade maior daquela em que, de pernas largamente cruzadas, sobre o sofá, se passa o delicado pincel no ornamento esmaltado das pequenas unhas? E o que dizer do lânguido balançar distraído dos pés a brincar de se libertar do calçado? Foi disso que o desejo de Lucas se alimentou.

Em um determinado fim de tarde, com o coração a esmagar seu peito, pulou a divisa murada e furtou do varal vizinho uma meia soquete que sabia pertencer aos pés da amada. Deitava-se com ela nas mãos ou sob o rosto, ou ainda muito junto ao corpo que se fazia adulto. Antes de adormecer aspirava profundamente a intimidade dos vestígios de seu cheiro no algodão branco com listras vermelhas. Com o tempo a possuiu de todas as maneiras de que eram capazes sua imaginação e paixão e a fez amante.

Homem feito, a carregou para todos os lugares e lhe foi fiel. Mesmo casado, a soquete branca e de listras vermelhas era o vértice do triângulo no leito conjugal, e só podia amar depois de aspirar o fantasma daqueles pés que não mais sabia por onde andavam.

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